Sade em Sodoma é uma novela, adaptada pelo próprio autor, Flávio Braga, baseada na obra do Marquês de Sade, “Os 120 dias de Sodoma”, escrito no século XVIII. Trata-se de uma obra de ficção e com personagens não criados pelo Sade e que formam dois monólogos: um masculino e outro feminino. O personagem masculino será vivido por Tárik Puggina e o feminino por Guta Stresser. A encenação fica a cargo de Gerald Thomas, e como encenação entende-se a direção, criação de cenários, figurinos, trilha sonora e demais elementos de criação. texto forte e denso é um viés de discussão para o homem de hoje e um dos pontos fortes do projeto.
Sobre a montagem, por Tárik Puggina - realizador e ator
Assim que comecei a ler a novela do Flávio Braga, percebi que eu tinha em minhas mãos uma obra de rara qualidade. E que, muito embora não tenha sido escrita para os palcos, projetava imagens lindas em minha mente, como se teatro fosse. Imagens fortes, de grande beleza, que na sua crueza, como é a vida, ecoavam e pediam para serem libertas. Em todo o tempo que imaginava essa encenação somente um nome me vinha à mente: Gerald Thomas.
Ousado, destemido, irreverente e absolutamente sagaz, ninguém melhor do que ele para dar vida a esse texto que, não sendo comédia, é puro humor e crítica. No papel masculino eu nem pensei duas vezes, só faria sentido se fosse feito por mim. Com uma veia cômica irônica e perversa tinha que ser eu a fazê-lo. E a atriz? Quem teria a ousadia de fazer um personagem tão forte, mas ao mesmo tempo delicado? Guta Stresser surgiu naturalmente no projeto, quando eu vi, lá estava ela saindo da televisão e entrando nessa empreitada com o Gerald e comigo.
Introdução sobre o espetáculo, por Flávio Braga - autor
O marquês de Sade é tão atual quanto os massacres que, regularmente, são praticados em pontos obscuros do planeta. A matéria prima de Sade são as vísceras da tragédia humana, quando o campo de batalha é o corpo. Seja o corpo étnico, seja o corpo amado, seja o corpo do inimigo. Os conflitos de todas as nacionalidades terminam na questão
central, que é o corpo. Sade antecipou, em seu 120 dias de Sodoma, tanto Treblinka quanto Kosovo, tanto Stálin quanto Bush e Putin.
O que mais impressiona na obra do marquês é a sua solidão como linguagem. Sade abordou o inabordável. O limite do humano é o respeito pelo corpo. Todos nós somos passíveis de nos tornarmos assassinos, mas a ninguém é permitido descrever e em última instância, defender o impulso homicida. Os personagens de Sade defendem a natureza do mal. Sem desculpas étnicas como os nazistas, sem a defesa de dogmas, como a Santa Inquisição e sem a desculpa ideológica, como os genocidas da atualidade.
Simone de Beauvoir perguntou: devemos queimar Sade?
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