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Monte de Gente - coletivo teatral
 

Quem é esse monte de gente?

Tem gente de muitos lugares: Humaitá, Tijuca, Leblon, Vigário Geral, Cascadura, Cruzada, Catete, Alto da Boa Vista. É uma trupe que no atual trabalho conta com aproximadamente 30 pessoas.


Surgimos como grupo, com outro nome, em 2005, com os ensaios para a peça “Las terribles noches de Roberto”, que montamos na UFRJ. Eu estudei ali, fazia Direção Teatral. A partir dali foi se formando uma pequena máfia com vontade de expansão. Galinha, Vicente, Romero, Suriam...


O processo criativo de Las Terribles Noches nos encheu de entusiasmo e de frisson afetivo. Era uma peça inspirada na obra do Nelson Rodrigues argentin Roberto Arlt, que virou personagem. A peça era toda falada em portunhol, tinha 3 canções originais e alterava humor rascante e melancolia ácida.


Vicente, que fez o Roberto Arlt, nunca tinha feito teatro. Era vocalista de uma banda, “Caraminholas”, mas eu falei que ele seria meu protagonista, olhando nos olhos dele, em um churrasco noturno no UFRJMar, em Cabo Frio. Já fez 6 peças, um filme e fotografou para um catálogo de uma estilista carioca.


No ensaio seguinte ele trouxe outro calouro, calado, de olhar atento e com grande disposição física e diversidade histriônica, esse insulano com pinta de nórdico: João Lucas Romero. Foi arrebatado por um ensaio grotowskiano de botequim e virou ator. Hoje está fazendo faculdade de teatro na Univercidade e já fez 8 peças.


Em Cabo Frio eu conheci um jovem mago sonoro e tecno-tosco, de nome mântrico: Suriam, cuja mãe faz o melhor e único cuzcuz marroquino que já comi. Suriba é uma de nossas sensibilidades musicais centrais. Ele fez o som do Habacuc... Tocou escaleta e violão em Terribles Noches. Foi sua primeira peça. Agora, já fez 5.


Pedrinhu, o doce Pedrinhu, praticamente um filho carioca bastardo de Caymmi, suave, delicado, bem humorado, muitas vezes involuntariamente engraçado, com seu jeito de quem está, não no mundo da lua, mas em alguma esfera metafísica mais... calma e poética...

Monte de gente tem muito ator calouro, mas também tem Monstro Sagrado; ator que canta, dança, sapateia e dubla. Seu nome: Sergio Somene, que não veio aprender, veio ensinar. Dono do churrasquinho mais movimentado do Estácio, o senador mais arquetípico da República. Serginho é versátil, carismático e virou mestre de cacos impagáveis... e ainda tem aquela qualidade quase em extinção: a pontualidade. Benção, voz operística da experiência.


Quando começamos a ensaiar Mundo Grampeado, precisamos de mais gente.

Começaram a chegar novos e interessantíssimos loucos e doidas.

A Nandinha, discreta, de olho na eficiência. Atriz nas vestes de produtora, com compromisso, mas sentindo as pontadas espirituais do processo coletivo-artístico. Mudanças. Transformações. Um dos meus braços direitos.


Carlinha, quanta suavidade para conquistar apoios e olhares ávidos sob grisalhas sobrancelhas. É pinto. Ela tira de letra. Áurea zen do tipo constante. Entra sorrindo e sai com 50 konis. Entra com seu olhar suave e lava 30 kilos de roupa por semana, de grátis. Carlinha ainda nos trouxe um galã que não entra em cena: Daniel Gabrielli - e a querida Mariella Pimental, sempre com agulinha no canto da boca, buscando bainhas com seu olhar doce e simpático.

O Arthur Ferreira, da nossa ala de compositores, swingando a melodia de Lorenna's Song e participando da feitura de diversas de nossas canções, além de ralar em montagens e desmontagens. Como o cara rala muito, só conseguiu pisar no palco uma noite com o Monte de Gente.


Uryon chegou de fininho. Assistiu “Mundo Grampeado” na UFRJ, secou um ator, que acabou desistindo do papel. Uryon virou o Dinho. Uryon criou o primeiro de nossos stencil, fez comigo a filiseda, e passamos tardes e mais tardes ralando nas diversas demandas de Mundo Grampeado. Outro de meus braços direitos... (quase uma entidade hindu)


Julia Gorman. Musa do paetê vermelho, olhar pictórico e penetrante, da caminhada jazzística... Senhorita Julia... da estirpe das divas.


Num ensaio no play, me trouxeram essa figura que é Marcelo Valentim. Moleque de rua e  âncora de telejornal. Uma verve e um timing próprios e prontos. Um diretor também tem que ter sorte.


O esguio Cesar chegou já no meio do Churrasquinho, pegou o tipo zonanorte e botou no saco. Depois penou um pouco e extraiu das entranhas um Sequelado. Daí para Vareta foi um pulinho básico. Mais um cabaço artístico rompido em Monte de Gente.


E o porte de galã, a arcada propícia para gargalhadas satânicas, o humor afiado de Lucas Oradovschi. Chegou pra fazer ponta, para acompanhar a namorada no ensaio e roubou, no mínimo, três cenas.


E o Chico. O único que apareceu para aquele teste sem sala, realizado na escadaria, nos orelhões e nas rampas de acesso de um prédio da Uni-Rio. Chico se incorporou de corpo, alma e marcelo ao grupo. Chico é aquele humor que sai do palco e vai pra coxia, o astral positivo, a dedicação guerreira ao processo.


Depois veio o escracho e a intensidade da Tassila Vale, com seu corpo histriônico, seu frisson existencial e seus dinâmicos e intuitivos jogos.


A múltipla sideração do olhar da Olívia Zisman, capaz de metamorfoses psiquicas impressionantes.


A coragem histriônica da Cecília Carvalhal, que ficou no maior entra-não-entra, mas que acabou entrando com tudo. Quantas carrancas (esse termo que eu adoto para o expressionismo facial intenso) memoráveis.


O humor debochado da Marília Prata, que parece que vive um divertido monólogo onde ela é o personagem central, repleto de auto-ironia (a irrradiação cômica da sabedoria). “Um dia ainda te escrevo Mulheres são do Leblon, Homens são da Pavuna”.


Desculpe se tem muito nome, mas somos um monte de gente.


Monte de Gente vai estar sempre caçando a expressividade original, vamos sempre unir música e teatro. Provavelmente seremos sempre verborrágicos. Nossos processos criativos serão impulsivos, intuitivos, intensos, pois é assim que somos como pessoas e artistas. Usaremos com muito gosto nosso lado estratégico e nos aliaremos a pessoas com a verve da produtividade, pois queremos crescer e aparecer, sair por aí e conquistar platéias de diversos sotaques.


Nosso grupo acredita na síntese stanilavskigrotoskibrechtartaudiana que já está no dna do homem transmilênico. Não queremos ser teóricos, queremos ser meteóricos. Nosso lema é: ensaio febril, apresentação varonil. Queremos apresentar ao públic intensidade, movimento, verdade, suor, lágrimas, palavras.


E a trupe foi crescendo...


O poético Escôba, figura de carisma discreto, tipo raro, que eu escondi da platéia com a promessa de um dia jogar um refletor sobre ele e um piano de cauda.


Depois dos músicos, vieram os percussionistas: a dupla cômica Bené & Júlio. O generoso Júlio, contador de histórias reais e verídicas que um dia irão virar cena e Bené gracejo na ponta da língua, pilha constante no parceiro e um humor a toda prova.


A Bel e seu dinamismo produtivo, seu frisson organizatório, seu espírito tão empreendedor quanto festivo, ou melhor, um empreendedorismo com gosto de farra. Uma vontade louca de dançar um funkão no palco, com shortinho de cachorra... rasgando pilhas de planilhas excell.

O Leo! Leonardo Soares. Um dia o Vicente falou que tinha um primo passando uns dias em sua casa e que ia trazer o cara a um ensaio. Ele continua vindo aos ensaios, fez personagem, entrou em coreografia, fez stencil. Leo é dedicação, sensibilidade, vontade e um astral estampado no olhar.

Seu Magno chegando junto para o batente dos bastidores. 73 anos de pura energia para o trabalho e um estoque de piadas incessante. Carlinhos, prata da casa do Teatro de Anônimo, comprando o barulho do Monte de Gente, hoje faz parte da equipe.

 

Tem mais gente: Dulce Penna, Theo Fellows, Débora Pagganni, Débora Azevedo, Guigga, gente que passou, vai, vem, some, retorna.


Monte de Gente é a galera criativa e hiperativa que se reuniu em torno de objetivos repletos de subjetividades. A missão deste monte de gente é fazer um teatro que venha da alma e da identidade de cada um.


Monte de Gente é dirigida pro Marcus Galinha e sua peça atual se chama Mundo Grampeado. MG, MG e MG. Talvez esta sigla mineira tenha alguma influência em nossa harmonia.


Nosso tempo é hoje e a sequência dos amanhãs. 2006/2008/2009/2010/2015/2021.

Queremos refletir estes tempos e instigar nossos conterrâneos e contemporâneos a pôr a mão na consciência ou na sensibilidade ou em qualquer lugar que se altere com a experiência viva do relacionamento humano. A cidade está caótica. A barbárie é um desafio. A arte é a voz das ruas. É o que se expresse no meio de tantas janelas caladas. Há fuzis e tamborins, sangue e acordes derramados, feições do mal e do bem. Há este pequeno monte de gente, cercado de outras multidões de montes de gente que, em última instância, formam nada mais nada menos do que a humanidade completa, essa que, hoje, viva, partilha esse mundo. Só eles podem nos assistir. Fazemos teatro e não cinema. Nos dirigimos aos vivos, ao vivo. Esse monte de gente só fica completo com a platéia. Que ela esteja sempre ao nosso redor quando a primeira fala irromper da boca de um de nossos personagens.
 

 


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