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Espetáculo inspirado no filme SEXO, MENTIRAS E VÍDEOTAPE, de Stephen Soderbergh.

sexo, mentiras e videotape – O FILME

Numa época em que o mundo está saturado de imagens, um filme sobre a integridade e a intimidade ganhou o Festival de Cannes de 1989. Feito por um nova-iorquino de 26 anos (na época), Steven Sodebergh, "sexo, mentiras e videotape" ("sex, lies and videotape") retrata a superação do impasse atual do pós-modernismo, com o esgotamento das histórias e cenários que até então mobilizavam nosso imaginário.

sexo, mentiras e videotape – O ROTEIRO

Um homem volta anos depois para sua cidade. É alguém que vive viajando, que prefere morar no seu carro, pois assim só tem uma chave para carregar.

Na cidade encontra-se com um amigo de faculdade, agora advogado, que trai a mulher com a cunhada. Pessoas que se enganam. Mentirosos infiéis a si próprios e aos outros. O oposto de tudo aquilo que fundamenta a amizade e a intimidade.

Assim Ann (a esposa traída) não quer ser tocada pelo marido. Sua frigidez vem da repulsa a essa insinceridade, da sua vontade de se diferenciar da irmã, desse universo exteriorizado onde tudo é performance e encenação. A recusa do sexo é, na verdade, uma estratégia para preservar sua intimidade. Aqui a mulher é aquela que tudo vê, quando os homens não se enxergam. Ela quer as coisas sempre às claras.

O recém-chegado se declara impotente. Não faz sexo, propositadamente, há anos, desde que deixou a cidade; para deixar de mentir, para não passar o tempo todo mentindo. Estamos em plena era da pós-sexualidade - no reino da palavra.

Ele entrevista mulheres sobre suas vidas sexuais e assiste aos vídeos depois, sozinho. "sexo, mentiras e videotape" pode por isso parecer um roteiro pornô mas é absolutamente casto. É que os vídeos são para ele apenas um modo de se aproximar, sem mentiras, das pessoas. Pede para que falem "algo pessoal". Poderia haver algo mais paradoxal? A câmera instaura uma distância intransponível entre sujeito e objeto. A televisão, onde toda interioridade é substituída pela pura aparência, poderia ser veículo para a intimidade com alguém?

sexo, mentiras e videotape – O ESPETÁCULO

 

A transposição para o teatro é absolutamente possível quando o roteiro já deixa muito clara a ausência de tipos e cenários, optando por uma crônica intimista e mostrando pessoas verdadeiras. Como em todo bom material dramatúrgico, em “sexo, mentiras e videotape” não é o desenrolar da trama que desenha o contorno íntimo dos indivíduos, mas ao contrário, são seus dilemas e ansiedades que provocam os conflitos.

Mas o argumento mais contundente para a transposição desse material cinematográfico para um espetáculo de teatro veio de David Hockney, pintor e fotógrafo inglês, que afirma: “sexo, mentiras e videotape” propõe uma fisicalidade que só ocorre entre a pessoa e o objeto. Você tem que passar pela experiência, não simplesmente ver. Tem de estar lá, não ver pela tv.”

sexo, mentiras e videotape – ENCENAÇÃO

É fato que, hoje em dia, a linguagem cinematográfica e televisiva está amplamente entranhada na sensibilidade do público. Portanto, a assimilação dos procedimentos cinematográficos pode ser um grande aliado para se estabelecer um elo de comunicação com o espectador.

Já no começo do século XX, diante do fascínio que o cinema começava a provocar, o diretor russo V. Meyerhold propunha: "Nós, que estamos a construir um teatro capaz de suportar a concorrência do cinema, declaramos: dêem-nos tempo de levar a cabo a "cinematização" do teatro, deixem-nos realizar no palco os processos técnicos do cinema (...), deixem-nos representar num palco aparelhado com todas as descobertas da técnica moderna e capaz de satisfazer o que exigimos da ação teatral, e, então, criaremos espetáculos que atrairão tantos espectadores quanto os cinemas."

Passaram-se cem anos e hoje, podemos dizer que vivemos na era da imagem. Os televisores e computadores estão espalhados pelas residências e estabelecimentos comerciais. Nas ruas, telões e outdoors eletrônicos. A todo momento, videoclipes e videogames de última geração. Quanto aos filmes propriamente ditos, eles nos chegam não apenas através dos cinemas, mas também pelos canais de televisão a cabo, videocassetes, dvds, internet celulares e etc. Portanto, mais do que nunca, é importante se levar em conta a experiência audiovisual.

O espetáculo pretende recorrer ao uso de procedimentos cinematográficos como a montagem de cenas paralelas e o flashback. No caso, a iluminação terá uma função importante, equivalendo à edição e aos movimentos e efeitos de câmera. Tal como nos closes fechados, por vezes a luz focará um pequeno objeto, o detalhe da expressão de um ator. Luzes caindo em resistência desempenharão o papel de fade-outs, etc.

A montagem recorrerá ainda à utilização de cenas em vídeo, projeções, sobreposição de slides sobre a cena e filmagem em tempo real. Trata-se de uma linguagem fragmentada, mas ao mesmo tempo acessível por ser característica da contemporaneidade.

Podemos dizer que o personagem central faz uma espécie de antropofagia da imagem, isto é, valendo-se da câmera – que cria simulacros, o personagem redescobre a noção de autenticidade. A adaptação para o palco procurará estabelecer uma outra camada dramatúrgica, criando um paralelo entre a história e as possibilidades criativas que o teatro pode obter ao se apropriar de procedimentos audiovisuais. Em tempos como o nosso – em que a imagem e o simulacro se confundem com a realidade – é fundamental recuperar o teatro como um espaço de existência humana autêntica e, paradoxalmente, a assimilação de procedimentos audiovisuais pode ser um grande aliado nesse sentido.

sexo, mentiras e videotape – FICHA TÉCNICA

Dramaturgia: Rodrigo Nogueira

Direça Ivan Sugahara

Elenc Cristina Flores, Jonas Gadelha, Maria M

Assistente de direça Cynthia Reis

Figurinos: Rui Cortes

Cenari Ivan Sugahara

Iluminaça Daniela Sanches

Preparaçao Corporal: Cristina Amadeo

Ediçao de Videos: Jonas Gadelha

Programaçao Visual: Marcelo Cravero

Fotos: Julio Callado

Visagista: Fernando Rodrigues

Direçao de produça Jonas Gadelha e Maria Maya

Produçao executiva: Claudia Charmillot

Assistente de produça Yuri Gofman

Assessoria de imprensa: Cristina Rio Branco

Realização  Jonas Gadelha e Maria Maya

 


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